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Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

18-11-2010 10:57

 

Antes de tudo, fiquei muito feliz em ver o sucesso de um filme nacional nas salas de cinemas obtido por mérito próprio. Não é pouco captar o carinho do público e acertar nas estratégias de distribuição. O lançamento em grande escala, toda a expectativa gerada e as longas filas ratificam esse mérito. Não era pequeno o conjunto de pessoas que contavam os dias para 08 de outubro. Tanto é verdade que, praticamente, todas as sessões de estreia estavam com ingressos esgotados Quem havia deixado para comprar no dia da premier foi parar na lista de espera.

Mesmo sabendo disso, fui com meu amigo Alex Vidigal a um dos cinemas de Brasília naquele dia. Já tinha certeza de que não conseguiria comprar ingresso para o filme. Contudo, precisava ver toda aquela movimentação. E também porque queria muito ver “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme”, o segundo filme da série de Oliver Stone lançado 23 anos após o primeiro longa, “Wall Street – Poder e Cobiça”. Acredite, a sessão de Wall Street estava com mais de 70% da sala preenchida, e o filme já estava em cartaz havia pelo menos duas semanas. Vejam o que o fenômeno Tropa de Elite foi capaz de fazer. O público excedente, formado por aqueles que não conseguiram ingresso para as sessões de estréia da película brasileira, acabou se direcionando (e preenchendo) às salas de outros filmes. E isso, meus amigos, é algo que não me recordo, principalmente em se tratando de cinema nacional.

José Padilha conseguiu algo que só me lembro de ter acontecido com blockbusters de Hollywood. Minhas recordações desses grandes momentos vêm mais de minha infância, onde era comum em filmes de cineastas como George Lucas, Steven Spielberg e James Cameron. Aliás, desse último, está fresco em minhas lembranças as filas gigantes em 1998 com o lançamento de Titanic. Apesar de não possuir os números precisos, não tenho registro dessas grandes filas com Avatar, também de Cameron.

Hoje, aos 20 anos, vi pela primeira vez um filme dirigido e produzido aqui derrubar todos os concorrentes, recebendo tratamento de um grande lançamento. Tudo bem, apenas esses fatos jogados ao ar não tornam um filme necessariamente bom. Entretanto, é um passo importante para esse ramo artístico que sonha, há quase um século, com o estabelecimento de uma indústria que consiga sobreviver com base na sua própria arrecadação. Pode ser um sinal precoce, mas na minha figura de amante do cinema, e de alguém que nutre total respeito e admiração aos que trabalham com essa área, especialmente no Brasil, espero que Tropa de Elite 2 seja o primeiro de muitos sucessos e não exceção de vários fracassos.

 

O filme

 

Completamente diferente do primeiro filme, tudo muda agora. Mas não se preocupem, as frases marcantes e bordões continuam lá. A minha preferida é a cínica “’Tá de pombagirisse comigo?”. Voltando ao que interessa, Tropa de Elite 2 agora traz o tenente-coronel Nascimento (Wagner Moura) enfrentando o outro inimigo, como aponta o subtítulo do projeto: a política. Após comandar uma operação mal sucedida em Bangu I que resulta em um massacre, Nascimento se torna um percalço para o governador do Rio. Por um lado, é exonerado para acalmar a pressão da imprensa locale internacional; por outro, é promovido a subsecretário de segurança para atender os anseios de uma elite formadora de opinião que pouco se importa com os direitos humanos de presos. A cena do restaurante, na qual Nascimento é aplaudido de pé, revela bem isso. Com seu novo cargo, o coronel precisa lidar com o envolvimento de políticos no crime organizado e com o crescimento das milícias, nascidas dentro da PM, que atuam nas favelas, além de enfrentar, paralelamente, os dilemas da paternidade.

Com uma fotografia vibrante de Lula Carvalho, que captou com precisão a frieza das salas dos burocratas e os becos das apertadas favelas cariocas, e com uma direção impecável de José Padilha, essa versão não perdoou ninguém. Todas as representações institucionais da sociedade e seus atores sociais foram severamente criticados. Exceção para coronel Nascimento é claro. O filme é narrado por ele. Portanto, desenvolve-se sob a perspectiva do próprio. Tropa de Elite 2 tem o mérito inegável de demonstrar a coragem de seus realizadores em abordar uma questão tão complexa e capaz de gerar uma polêmica que mereceu ganhar as ruas. Além disso, tem a capacidade indiscutível de provocar uma catarse completa no público. Age simultaneamente como entretenimento e, ao mesmo tempo, estimula discussões a respeito de temas sociais que, raras vezes, são debatidos com a profundidade buscada na obra. Afinal, uma sociedade que possui o coronel Nascimento como herói é de fato uma sociedade doente que necessita de muita autoanálise.

E, por fim, não acho que Nascimento tenha morrido. Então ainda há gancho para uma terceira sequência. Se o primeiro filme foi uma espécie de “Duro de Matar”; o segundo uma construção no melhor estilo “O Poderoso Chefão”, tudo me leva a crer que o terceiro será um grande “Apocalypse Now”, com Nascimento no estado de insanidade em que o coronel Kurtz (Marlon Brando) estava naquela obra de Coppola. Podem aguardar.

 

- Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

- Direção: José Padilha

- Elenco: Wagner Moura, Milhem Cortaz, Maria Ribeiro, André Ramiro, Irandhir Santos

- Duração: 117 minutos

 

Por: Leonardo Coelho

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