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Para Emanuel, da Anfetamina

17-11-2010 23:21

Para Emanuel, da Anfetamina

Marina Maria

 

 

Eu tenho uma culpa enorme, sabe? Hoje eu poderia ser uma Rita Hayworth. Mas é que por dignidade – uma dignidade ridícula e tardia – eu saí da peça. Mas isso não vem ao caso.

Eu tenho descoberto algumas coisas sobre mim. Talvez também sobre o resto do mundo. Não sei.

Descobri que não consigo acreditar na minha morte. Aqui, um tolo falaria em ilusão. Mas é a verdade. Analisando com cuidado, ninguém é capaz de acreditar nisso. Por isso inventaram deus.

Descobri que carinho é desnecessário, ridículo até. Aqui, falariam em degradação, distúrbio. O que eu vejo é real, é vontade.

Entendi que é de fuga o autocontrole, que é de disfarce a monogamia. Que devemos entender de uma vez por todas que somos animais e que gostamos de comida e sexo e só. E tudo em excesso. Que os refinamentos não se encaixam mesmo.

Descobri que estou doente. Aqui, um tolo falaria em câncer. Não sabem que câncer é doença de gente reprimida?

Eu tenho uma culpa enorme, sabe? Sempre gostei da sétima arte. Hoje eu seria uma Rita Hayworth, bastava ter fechado os olhos. Aqui, um tolo falaria em pecado. Vejo apenas virtude.

F5 Produções

 

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